segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Distrito 9



DISTRITO 9 (District 9, 2009, 112 min)
Produção: Estados Unidos / Nova Zelândia / Canadá / África do Sul
Direção: Neill Blomkamp
Roteiro: Neill Blomkamp e Terri Tatchell
Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, John Summer, William Allen Young, Nick Blake.

Com quatro indicações (Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Montagem e Efeitos Especiais) na edição do Oscar de 2010, pode-se dizer que “Distrito 9” (2009) era um dos azarões daquela noite, tanto que não foi premiado com nenhuma das estatuetas. No entanto, em um ano em que tivemos “Avatar” (2009) como um dos favoritos e ainda concorrendo a melhor Efeitos Visuais (categoria que talvez “Distrito 9” tivesse alguma chance), as nomeações serviram para agraciar um dos filmes que mais interagiram com o público naquele ano. Também devemos lembrar que o ano de 2010 foi o primeiro a ter 10 longas-metragens concorrendo ao cobiçado prêmio principal e como essa também não foi uma temporada de grandes filmes dramáticos, talvez “Distrito 9” tenha abocanhado uma vaga por falta de opções melhores.

Primeiro (e por enquanto único) filme no currículo de direção do sul-africano Neil Blomkamp, “Distrito 9” é um filme que relembra em tom metalingüístico de um assunto polêmico: o apartheid que assolou a África do Sul por décadas, mas longe de ser um obra de discussões amplamente filosóficas, também não deixa de transitar pelos gêneros de ficção e ação. A trama nos mostra uma nave alienígena, que do nada, aparece sobre o céu de Johannesburg, África do Sul. Os aliens que habitam a gigantesca espaçonave não têm o intuito de dominar o planeta ou algo parecido; na verdade, eles são um grupo de operários que na iminente quebra de seu transporte e perda de seu líder ficam à deriva e não tem outra solução a não ser aportar em solo terrestre. Logo o governo sul-africano assenta os milhares de alienígenas, que logo ficam conhecidos pelo termo pejorativo “camarão” (principalmente pela semelhança com os crustáceos terrestres) em um terreno denominado Distrito 9.

Com a evidente falta de liderança, discernimento ou simplesmente pelo sentimento de deslocamento e desapego, o Distrito 9 não tarda a torna-se uma gigantesca favela, aos moldes das mais famosas do mundo. Dominada por criminosos nigerianos, que controlam os aliens através da comida de gato, que funciona para os “camarões” como uma droga, o Distrito 9 é visto como um estorvo pelas autoridades, população e será desapropriado pelo governo da África da Sul.  A agência que controla os alienígenas, a MNU é a encarregada do remanejamento daqueles seres para o Distrito 10, um assentamento bem distante da cidade. O encarregado de fazer com que os “camarões” assinem os documentos de desapropriação é Wikus Van der Merwe (Sharlto Copley), um funcionário mediano da MNU, mas que por ser casado com a filha do Diretor da empresa acaba ganhando essa bem-vinda “promoção”.

Claro que o esvaziamento do Distrito 9 não sai como deveria e no meio de tanta loucura e confusão, Wikus acaba se contaminando com uma substancia alienígena que cria uma fusão do DNA alien com o humano. Conseqüentemente, essa brutal simbiose evolui para uma monstruosa mutação em Wikus. Com a MNU em seu encalço, atrás de dissecar seu organismo contaminado, Wikus encontra no “camarão” Christopher a única chance de voltar a ser inteiramente humano. O alien possui um nome terrestre, o que não é estranho dentro da contextualização da trama, já que os visitantes estão a quase duas décadas no Distrito 9 e com hábitos terrestres incorporados a suas rotinas. Assim como Wikus vê em Christopher uma salvação, o “camarão” também vê no homem uma renovação de suas esperanças em conseguir consertar a gigantesca nave-mãe e de alguma forma buscar socorro para seu sofrido povo.

Se “Distrito 9” não é uma realização grandiosa ao ponto de levar uma estatueta de Melhor Filme, o que também consideraria um exagero, ainda assim o filme de Blomkamp (produzido por um confiável Peter Jackson) consegue dialogar com eficiência com o público. Assim como temos cenas que causam certa reflexão (principalmente as montadas em formato de documentário), também temos seqüências de pura ação, com um nível alto de tensão e crueldade. O trabalho de efeitos especiais é eficiente, trazendo um senso crível às criaturas alienígenas e conseguindo fazer com que o espectador consiga se identificar com os “camarões”. A montagem, alternando entre um falso documentário, nuances de drama e ação, traz para o filme uma fluência que não pesa na narrativa e faz de Distrito 9 um filme de fácil acesso para qualquer platéia.

Para finalizar, em um ano com indicados tão modestos em suas atuações, como Morgan Freeman por “Invictus” (2009) ou mesmo George Clooney por “Amor sem Escalas” (2009), acredito que não seria um absurdo termos o sul-africano Sharlto Copley entre os nomeados. O seu Wikus Van der Merwe, no início do filme, é um sujeito corporativamente execrável, daqueles que irritam somente pela presença, mas ao decorrer da trama, com sua iminente contaminação e mutação, seu personagem vai repensando suas ações e sendo dimensionado de uma maneira heróica. Sim, se a obra aqui em questão tem um herói ou anti-herói, esse é Wikus e não tenho dúvidas, ele também é a melhor coisa de “Distrito 9”.

INDICAÇÕES:
1. Melhor Filme: Peter Jackson e Carolynne Cunningham
2. Melhor Roteiro Adaptado: Neill Blomkamp e Terri Tatchell
3. Melhor Edição: Julian Clarke
4. Melhores Efeitos Visuais: Dan Kaufman, Peter Muyzers, Robert Habros e Matt Aitken

por Celo Silva

3 comentários:

Luís disse...

Acho que o filme tem os seus bons momentos, mas honestamente não enxergo tantas proezas nele quanto você. A meu ver, uma obra satisfatória, porém bastante esquecível - eu mesmo não me lembro de nenhuma cena em específica.

! Marcelo Cândido ! disse...


Ele é barulhento...

Anônimo disse...

Só eu que chorei nesse filme? achei muito emocionante, impossível não lembrar dos milhares de refugiados, esse filme é mais real do que parece.